Você começa um jogo e, antes mesmo de controlar o personagem, assiste a uma sequência cinematográfica. Há diálogos elaborados, atores emprestando seus movimentos e vozes aos personagens, trilhas sonoras dramáticas e cenas que parecem ter saído diretamente de um filme.
Não é impressão sua, os videogames realmente incorporaram cada vez mais elementos do cinema. Todavia, isso não significa que os jogos estejam simplesmente tentando virar filmes. Na verdade, o caminho é um pouco mais interessante.
O cinema ajudou a ensinar os jogos a contar histórias
Nos primeiros videogames as limitações técnicas dificultavam bastante a construção de narrativas complexas. As histórias precisavam caber em poucas linhas de texto, imagens simples ou pequenas sequências entre as fases.
Com o avanço da tecnologia isso mudou e gráficos mais detalhados permitiram criar personagens expressivos, ambientes maiores e cenas capazes de transmitir informações sem depender apenas de textos.
A narrativa passou a ocupar um espaço cada vez maior dentro da experiência.
Os personagens ganharam rosto, voz e movimento
Um dos maiores responsáveis por essa transformação foi o desenvolvimento das tecnologias de captura de movimento. Ao invés de simplesmente animar um personagem manualmente, os estúdios podem registrar movimentos de atores e utilizá-los para criar performances digitais.
Isso ajudou a aproximar os personagens virtuais de atores reais. Expressões faciais, gestos, maneira de caminhar e até pequenas reações durante uma conversa podem fazer parte da atuação.
O resultado é uma experiência muito diferente daquela dos personagens que apenas ficavam parados enquanto uma caixa de texto aparecia na tela.
Mas existe uma diferença fundamental
Apesar de toda essa influência cinematográfica, um jogo continua tendo algo que um filme não possui da mesma maneira: o jogador participa da história.
Em um filme você observa o protagonista atravessar uma situação enquanto em um jogo pode ser você quem precisa atravessá-la. Essa diferença parece pequena, mas muda completamente a relação com a narrativa.
Uma cena pode apresentar um personagem em perigo, mas o jogo também pode exigir que você encontre uma solução, escolha um caminho ou simplesmente sobreviva à situação. A história deixa de ser apenas algo que você assiste e passa a ser algo que você ajuda a experimentar.
Por isso as cenas cinematográficas funcionam tão bem
Os chamados cutscenes, ou cenas não interativas, são um exemplo claro dessa mistura. Elas permitem que os desenvolvedores controlem exatamente o que o jogador vê durante determinados momentos importantes da história.
É possível apresentar uma revelação, introduzir um personagem ou mostrar uma mudança importante no mundo do jogo sem depender da liberdade habitual do jogador. Depois, o controle volta para suas mãos.
Essa alternância entre assistir e participar ajuda a construir experiências narrativas mais complexas.

Os jogos também aprenderam com a linguagem do cinema
Enquadramentos de câmera, iluminação, montagem, trilha sonora e construção de suspense são recursos utilizados há décadas pelo cinema. Os videogames passaram a incorporá-los de maneiras próprias.
Uma câmera pode acompanhar lentamente um personagem por um ambiente para criar tensão. Uma mudança repentina na música pode avisar que alguma coisa está prestes a acontecer. Um determinado enquadramento pode chamar atenção para um detalhe que será importante mais tarde.
A diferença é que tudo isso precisa funcionar dentro de um ambiente que, muitas vezes, continua sendo interativo. É uma espécie de cinema em que alguém pode interromper a cena porque decidiu explorar uma gaveta no canto da sala.
E essa influência funciona nos dois sentidos
A relação não acontece apenas dos filmes para os jogos, o sucesso de grandes franquias de videogame também ajudou a transformar jogos em propriedades capazes de gerar filmes e séries.
Hoje, personagens e universos originalmente criados para os games podem ganhar novas versões em outras mídias. Isso mostra que videogames deixaram de ser vistos apenas como uma forma de entretenimento baseada em pontuação e desafios.
Eles também se tornaram uma maneira de contar histórias.
O futuro provavelmente será uma mistura ainda maior
Com gráficos cada vez mais detalhados, inteligência artificial, captura de movimento e tecnologias de áudio mais sofisticadas, a fronteira entre diferentes formas de entretenimento tende a ficar ainda menos rígida.
E talvez o mais interessante seja justamente que os jogos não precisam escolher entre ser cinema ou ser videogame, eles podem pegar elementos dos dois e criar algo próprio.
Afinal, um filme pode contar uma história sobre alguém enfrentando um desafio. Já o jogo pode colocar o controle desse desafio nas suas mãos e é essa diferença que faz com que os videogames continuem parecendo cada vez mais filmes sem nunca deixarem de ser jogos.

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