Será que tem alguém aí fora? Em setembro, um pesquisador brasileiro entrou nessa conversa com uma lista de oito planetas. Só que o que ele fez é um pouco diferente do que as manchetes deram a entender, e a história real é mais interessante.
O que foi feito de verdade
Fábio Calabrio Evangelista da Silva, do Observatório Nacional (RJ), orientado pelo professor Marcelo Borges Fernandes, apresentou o trabalho em eventos de astronomia e astrobiologia. O resumo está entre os pôsteres da XLIX Reunião Anual da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB).
Ele não apontou um telescópio e “descobriu” planetas novos. Pegou o banco de dados da NASA, que já passa de 6 mil exoplanetas confirmados, e passou uma peneira bem fina.
Como funciona a peneira
Em resumo, o trabalho seguiu estes passos:
- Só planetas rochosos: do tipo Terra ou super-Terra, ou seja, aqueles com chão, e não uma bola de gás como Júpiter.
- Zona habitável calculada com um modelo de computador: é a faixa em que a água pode ficar líquida, nem perto demais da estrela, nem longe demais. Os astrônomos chamam de zona “Cachinhos Dourados”.
- Duas versões dessa zona: uma otimista, que supõe que Vênus e Marte já tiveram água líquida no passado, e uma conservadora, que leva em conta efeitos de estufa mais extremos.
- Pressão e temperatura na superfície: calculadas supondo uma atmosfera parecida com a da Terra ou a de Marte. É cálculo, não medição.
No fim, o ranking de semelhança com a Terra apontou oito candidatos.
O favorito: GJ 1002b
Segundo o estudo, o líder do ranking é o GJ 1002b, com 98% de semelhança com a Terra. Ele está a cerca de 16 anos-luz daqui e orbita uma anã-vermelha, uma estrela menor e mais fria que o Sol.
Esse planeta não é novidade: foi descoberto em 2022 por uma equipe internacional liderada por Alejandro Suárez Mascareño, usando os espectrógrafos ESPRESSO e CARMENES. Eles medem o “balanço” que a gravidade do planeta causa na estrela. Na mesma estrela existe ainda um segundo planeta, o GJ 1002c, que dá uma volta a cada 20 dias, mais ou menos.
O ano do GJ 1002b dura só 10 dias. Parece estranho, mas faz sentido: como a estrela é fraquinha, a zona habitável fica bem coladinha nela. É como sentar pertinho de uma fogueira pequena para se esquentar.
Candidato não é vida
Aqui vem a parte que as manchetes costumam pular:
- As reportagens não explicam como o índice de 98% foi calculado.
- O que está publicado é o resumo de um pôster, e não um artigo de revista científica revisado por outros especialistas.
- Como a atmosfera é suposta, e não observada, a temperatura calculada pode estar bem longe da real.
- A régua é a Terra. Os próprios pesquisadores admitem que a vida pode usar outra química.
- Anãs-vermelhas costumam soltar explosões de radiação que podem arrancar a atmosfera de planetas muito próximos, e a atmosfera desses mundos ainda não foi analisada.
Então por que isso importa?
Porque o céu é grande e telescópio bom é caro e disputado. O objetivo declarado do trabalho é justamente apontar os melhores alvos para futuras observações. Uma lista enxuta ajuda a decidir para onde olhar primeiro, e isso é trabalho de base da astrobiologia. Ver ciência brasileira nesse jogo também é bem legal.
A resposta sobre vida lá fora continua em aberto. Mas a fila de lugares para investigar ficou um pouco mais organizada.
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Referências
- Identificação e caracterização de planetas rochosos astrobiologicamente interessantes (resumo, XLIX Reunião Anual da SAB)
- Pesquisador brasileiro identifica oito planetas candidatos a ter vida extraterrestre (Agência Brasil, via Diario de Pernambuco)
- Pesquisa identifica oito planetas candidatos a ter vida extraterrestre (Agência Brasil, via Acessa.com)
- Discovery Alert: Two Nearby Worlds Might Be Habitable (NASA)
- NASA’s Tally of Planets Outside Our Solar System Reaches 6,000 (NASA/JPL)
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